
Cotidiano.
Era agosto, manhã de sexta, e como todos os dias úteis ele acordou cedo, tomou banho, vestiu-se, tomou café, saiu...
Mais um dia do ano, mais um dia de trabalho que logo iria acabar... Na verdade, não! Ele entrara de plantão naquele dia e só iria sair depois de 72 horas. Ou um pouco mais que isso, afinal, nos dias de hoje doenças cardiacas são comuns.
Aquele não era qualquer plantão. Ele sentia que ia ser daqueles complicados. De cara, recebeu uma jovem com IAM. Nada mais incomum.
Despois de atender e salvar a vida da jovem, tiveram inumeros outros casos de IAM's, AVC's, agina...
Já havia feito 70 horas do seu plantão, ele entrou no quarto da jovem para dar-lhe alta.
- Pronto, já pode ir pra casa moçinha.
- Obrigado Dr. por consertar meu coração!
Ensaiando um sorriso o Dr. Pierre pegou na cabeça da garota e assanhou seus cabelos negros, que contrastavam sua pele branca. Ia saindo do quarto quando...
- Dr. Porque está tão triste? É o cansaço do trabalho?
Sem querer demandar a conversa, o doutor sorrio pelo canto da boca e disse:
- Não minha jovem, são essas dúvidas...
- Mas... Sabe... minha mãe sempre diz que quando temos dúvidas, devemos seguir o nosso coração, porque não segue o seu?
O doutor ficou em silêncio por uns dez segundos e então respondeu:
- Porque ele quebrou!
Pierre então saiu do quarto rapidamente.
A garota não entendeu ‘ como um homem que conserta corações, possuía o seu quebrado?’, pensou ela. Concluiu que devia ser muito difícil concertar o próprio coração, afinal, ela mesma vivia com o seu com defeito e nunca o consertava.
Anos passaram...
E a jovem, agora mulher, formou-se em medicina e se especializou em cardiologia. Queria consertar os coraçõeszinhos que como o dela não funcionava direito.
Em um de seus plantões Dra. Brunni esbarrou com aquele medico que havia a salvo na adolescência. Foi inevitável a troca de olhares e o brilho nos olhos. E talvez naquele momento o coração que foi um dia quebrado, poderia ser consertado...
Thais Filgueiras.
